Desprendi-me do meu..."interlocutor" pela cautela ética que quis acrescentar a essa criação…mas também para acrescentar espaço a mim própria, para meu resguardo, assim como que por um pudor de falar de algo tão inimaginavelmente íntimo, que nem ao reflexo no espelho se ousa verbalizar: algo como expor as entranhas; escalpelizar emoções, é isso!…

Houve um tempo em que uma prega de tempo me soltou _ eu estivera ali presa, naquela dobra que um qualquer esvoaçar de desconhecidas asas repentina mas oportunamente desdobrou _ pois não resistiria mais à eminente sufocação…
O afastamento não dera condições de logo me situar: foi como uma real travessia de dimensão.
A estranheza acompanhou-me e em período de reajustamento à existência de luz viva deparei-me com a impossibilidade de engolir alimento mental/sensorial preparado por outrem que não eu: não conseguia ler! Apenas não podia deixar de trazer papel e caneta por onde quer que andasse.
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Era simples: a mentalização pela escrita era o indispensável filtro do jorro de matéria bruta de emoções e de sentimento; através do exorcismo pela palavra escrita mantinha-me à tona de uma vida aparentemente normal; por outro lado, não aguentaria vivenciar as emoções cruas de outros _ em um antes-ansiado alimento; agora não!: as minhas estavam então em carne viva, sequelas do lugar de sombras… e do salto súbito, enfim, da viagem.
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E não sei de que outro modo seria mesmo possível resistir e continuar com o mínimo de sanidade, para garantir-me uma símile de manutenção da autonomia e eficiência, conquista escondida por trás de uma tão mais comum fachada-dos-dias, que assim se passavam, nessas dualidades …
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E aquele ser que falava pela minha caneta, tantas vezes depurando as golfadas de sensações que eu não atinava em de-escrever, era o quê? Os anjos? _ perguntava-me eu a sorrir comigo, tentando ultrapassar o pasmo _, e não falava desse retorno com mais ninguém.
A pouco e pouco, fui quebrando o estranho jejum; mas apenas lia “coisas” pseudo-instrutivas, na tentativa de aprender a mapear-me nos sinais que me cercavam _ e que eu elegia como roteiros dos dias…
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Claro que coisas destas não se “ventilam” com ninguém.
Nem o reflexo no espelho me é tão próximo que eu fosse ao ponto de cair nessa tentação…
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